O desemprego registado na Região Autónoma da Madeira, em Janeiro deste ano, assinalou uma quebra de 28,9% face ao ano precedente, sendo a Madeira a região do País com maior diminuição do desemprego. Ao DIÁRIO, a presidente do conselho directivo do Instituto de Emprego da Madeira (IEM) faz uma análise à diminuição do número de desempregados registados na Região e destaca o “papel decisivo” do serviço que preside.
Licenciada em História Moderna e Contemporânea pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa/Lisboa e mestre em Teoria Política Europeia pela Universidade Complutense de Madrid, Vânia Jesus sublinha ainda a importância da formação para a integração no mercado de trabalho.
O Instituto de Emprego da Madeira registou no fim do mês de Janeiro de 2022,14.469 desempregados inscritos. Essa diminuição deve-se apenas à retoma da economia?
A redução homóloga do desemprego registado em Janeiro é de 5.880 desempregados (-28,9%). A retoma da economia é condição indispensável à redução do desemprego e confirma-se assim como fundamental, pois para além de diminuir o número de novas inscrições levou à (re)integração de desempregados no mercado de trabalho.
Para este facto contribui também a intervenção do IEM através das políticas activas de emprego, tendo este Instituto reforçado e adaptado substancialmente a sua actuação, no que diz respeito às medidas activas de emprego, de modo a dar resposta a novas necessidades em período de contracção económica.
Quantos cidadãos foram integrados no mercado de trabalho?
Em 2021 foram registadas 8.275 integrações no mercado de trabalho, mais 3.072 do que em 2020.
Qual é o perfil actual do desempregado na Madeira?
Caracterizando o perfil dos desempregados inscritos podemos referir que: 54,6% são mulheres; 88,4 % têm idade superior a 25 anos; 57,3% têm escolaridade igual ou inferior ao 3° ciclo do ensino básico; 91% estão à procura de novo emprego; 60,2% são desempregados há mais de um ano (desempregados de longa duração); 82% provêm da área dos serviços; 40% residem no Funchal.

Vânia Jesus, presidente do Instituto de Emprego da Madeira
Que medidas de combate ao desemprego destaca durante esta crise pandémica?
Desde logo o objectivo das várias medidas implementadas pelo IEM no contexto pandémico foi prevenir o desemprego e evitar ou atenuar a quebra de rendimentos de empresas e trabalhadores, especialmente no que concerne a apoios criados para os trabalhadores independentes e MOE [membros dos órgãos estatutários] e para as empresas e trabalhadores no regime de lay-off simplificado.
Outras medidas visaram aliviar a tesouraria das empresas num momento difícil, impedindo que empresas apoiadas pelo IEM fechassem portas, foi o caso das medidas de pagamento de uma só vez do apoio aos postos de trabalho, anteriormente pagos em tranches.
Também foram reforçados os apoios/incentivos à criação de novos postos de trabalho por contratação de desempregados – aumento em mais de 55% dos valores dos prémios de emprego (que passaram a estar indexados ao valor do Salário Mínimo Regional ao invés do Indexante dos Apoios Sociais) -o sucesso desta medida é evidente no aumento do número de postos das candidaturas entradas, mais 60% em 2021 do que em 2019.
Saliente-se ainda que nos estágios procedeu-se ao aumento da comparticipação às entidades e do tempo da duração dos programas.
Destaco por fim o Qualificar + para Empregar e o Programa de Apoio ao Reforço Equipas Sociais e de Saúde. Se o primeiro teve como objectivo a reconversão de competências de desempregados, tendo abrangido 304 desempregados, o segundo apoiou fortemente e reforçou o sector mais afectado pela pandemia, tendo abrangido 453 desempregados.
Considera que a actuação do IEM tem sido determinante para o reingresso de pessoas no mercado de trabalho?
Absolutamente. O IEM tem tido um papel decisivo ao proporcionar oportunidades para que muitos jovens e adultos na situação de desemprego consigam o seu (re)ingresso no mercado de trabalho. Os projectos, acções, medidas activas de emprego promovidas pelo IEM têm demonstrado a importância deste organismo público na resolução de questões de empregabilidade.
Orientamos as nossas medidas para os diferentes públicos alvo, actuamos junto dos jovens, dos adultos, dos mais desfavorecidos e das empresas. Cumprimos a nossa missão de proporcionar condições aos desempregados que os habilitem a fazer face às mudanças que ocorrem, cada vez mais imprevisíveis e repentinas, no mercado laboral, em particular, e na sociedade em geral.
Quais são os principais entraves à empregabilidade? A qualificação é um factor determinante em todas as áreas?
Os constrangimentos à empregabilidade são de natureza diversa, em função das características próprias das ofertas de emprego e da exigência de qualificação que é transversal a todos os sectores de actividade. Este ajuste é uma tarefa difícil e sempre inacabada, porque as competências que hoje são consideradas essenciais rapidamente vão dando lugar a outras. Trata-se de um esforço permanente.
A acção do IEM é encaminhar desempregados inscritos para os programas de formação existentes no Instituto de Qualificação Profissional, IP-RAM e desenvolvido por entidades de formação certificadas na RAM, com quem temos reforçado parcerias. Temos identificadas as áreas de mão-de-obra com maiores necessidades de formação, como por exemplo, profissionais de áreas específicas da construção, das línguas estrangeiras, da hotelaria e restauração, assim como das tecnologias da informação e comunicação, áreas muito procuradas numa economia de base turística.
Não tenho dúvidas de que devem ser criados instrumentos e mecanismos para que o desenho do perfil profissional de uma qualificação e dos programas formativos correspondam, o mais possível, aos requeridos pelas empresas. Os desafios e a incerteza do futuro, levam a que afirme convictamente que há que reforçar a diversidade e actualidade das respostas formativas, garantindo o ajuste entre a oferta e a procura.
Continua a haver falta de mão de obra em alguns sectores, nomeadamente na construção civil e hotelaria. As pessoas em situação de desemprego não conseguiriam fazer face a essa carência? Porquê?
Existem vários factores que dificultam o preenchimento das vagas disponíveis, tais como a inexistência de qualificações adequadas às ofertas – evidente nos sectores da construção, restauração e hotelaria – mas também a dificuldade de conciliação com a vida familiar, as próprias condições das ofertas de emprego, quer a nível de remuneração, horários que não se tornam aliciantes e por vezes incompatíveis com a rede de transportes, a existência de economia informal, a elevada rotatividade entre empregos e a sazonalidade típica destes sectores. Pode-se, também, referir que os desempregados actualmente inscritos com algum nível de qualificação procuram um emprego na área da sua formação, como forma de recuperarem o investimento pessoal realizado. No contexto específico da pandemia, surgiu, ainda, outro factor: a perda de emprego decorrente do encerramento e restrições no sector da hotelaria e restauração, levou a que os novos desempregados se inscrevessem no IEM e procurassem emprego noutras áreas, com menor nível de incerteza e maior segurança contratual. Para os desempregados que querem trabalhar nestas áreas, mas sem os conhecimentos e a experiência profissional exigida, o IEM criou programas de formação em contexto de trabalho, para uma aprendizagem efectiva do que é pretendido pelas entidades.
Existem recusas de trabalho sucessivas? Qual é a justificação mais frequente para essas recusas?
Existem vários motivos para o insucesso de uma apresentação a uma oferta de emprego, não sendo considerado recusa de emprego se o candidato apresentar um motivo válido e comprovável para a não aceitação (razões salariais justificadas, falta de transporte, doença impeditiva do desempenho das funções, etc..).
Importa referir que, nos últimos meses, o elevado volume de ofertas de emprego similares num espaço curto de tempo (pós-pandemia), com a normal exigência de rapidez de resposta, levou a um volume elevado de apresentações de candidatos a várias ofertas em simultâneo. Esta situação deu a oportunidade aos candidatos de, ao serem seleccionados para mais do que uma oferta, decidirem-se pela mais apelativa, gerando-se recusas às restantes.
Por outro lado, o facto de as próprias entidades recorrerem a outros meios de divulgação de ofertas de emprego, traduz-se num ajustamento directo ao mercado de trabalho, fazendo assim com que desempregados encaminhados a ofertas de emprego através do IEM, à data da entrevista já não estejam disponíveis para trabalhar. Relativamente a esta situação, consideramos ser o próprio mercado de trabalho a funcionar e a lei da oferta e da procura.
Importa frisar, que quanto a números, da totalidade das apresentações efectuadas ao longo do ano de 2021, apenas 2,7% foram consideradas recusas efectivas de ofertas de emprego.
Vai haver mais fiscalização para quem recusa sistematicamente ofertas de emprego?
O IEM não tem a competência de fiscalizar nem os desempregados, nem as empresas. A fiscalização de desempregados a receber prestações de desemprego é da competência do Instituto de Segurança Social da Madeira, que em caso de irregularidade é quem comunica as situações ao IEM. A fiscalização a empresas está sob a actuação da Direcção Regional do Trabalho e da Acção Inspectiva. Portanto, se estamos a falar do controlo de recusas de ofertas registadas junto do Instituto de Emprego, a esse nível actuamos com base nas informações que as entidades empregadoras nos fornecem, após a apresentação dos candidatos às várias ofertas de emprego registadas, pelo que temos reforçado junto das empresas que é da maior 1importância comunicarem, de forma clara, célere e inequívoca os motivos da recusa.
Quanto aos efeitos de uma recusa de emprego por um candidato apresentado à oferta, elas variam em função de estarem ou não a receber prestações de desemprego. E são sempre analisados os motivos da recusa, avaliando-se sempre a disponibilidade para o trabalho, condição principal para a manutenção de inscrição activa nos nossos serviços.
Os não beneficiários de prestações de desemprego representam cerca de 65% dos desempregados inscritos. Não auferem qualquer apoio financeiro e inscrevem-se para ter apoio dos nossos serviços para encontrar um trabalho que vá ao encontro do seu perfil e ambição profissional e nem sempre aceitam as condições apresentadas em algumas ofertas de emprego. No caso de uma recusa não justificada, o IEM procede à anulação da inscrição para emprego, com uma penalização de 90 dias para efeitos de reinscrição.
No que respeita à recusa de ofertas de emprego por parte de beneficiários de prestações de desemprego, a situação é diferente. A própria legislação é clara, definindo o que se entende por emprego conveniente, emprego esse que quando apresentado pelos serviços de emprego não pode ser recusado. Assim, um beneficiário de prestações de desemprego não pode recusar nenhuma proposta de trabalho, sendo-lhe cessado o subsídio de desemprego.
O Instituto tem em vista novos projectos para este ano?
O IEM tem vários projectos para 2022, desde a modernização administrativa dos seus serviços, num processo gradual e evolutivo em curso de disponibilização de serviços interactivos, com o objectivo de aproximar cada vez mais o serviço público de emprego dos cidadãos e empresas, nomeadamente na diversificação e melhoria contínua dos seus canais de atendimento e prestação de serviços presenciais e a distância.
Em curso encontra-se a criação de novas medidas de emprego, seja para públicos desfavorecidos, seja para dinamizar a economia regional através da criação de novos postos de trabalho e de novas empresas. Por outro lado, o IEM está a actualizar algumas das medidas activas de emprego existentes, traduzindo-se num esforço de melhoria face às necessidades actuais.
Também o reforço da relação com as entidades empregadoras é e permanecerá um imperativo na prossecução dos objectivos do IEM, estando previstas várias acções junto das mesmas.
Mariana Pacífico | Diário de Notícias | 01/03/2022

