“As pessoas que trabalham por turnos têm maior propensão para problemas de saúde ou para cometer erros no dia-a-dia porque vivem numa constante situação de jet-lag”. Quem o diz é Christian Guilleminault, professor e investigador da Universidade de Stanford (Estados Unidos da América) e um dos maiores especialistas do mundo em doenças do sono, que se encontra na Região para participar no Curso de Pós-Graduação em Apneia, que hoje se inicia.
Segundo explicou ao DIÁRIO, quando uma pessoa viaja e perde vários fusos horários o corpo demora cerca de 5 dias a retomar o normal funcionamento. Quem trabalha por turnos, está a fazer com que o seu organismo nunca recupere em condições.
E a perda de horas de sono pode ter efeitos irreversíveis, além do normal cansaço, problemas na atenção ou dores de cabeça, alerta Guilleminault. “Estar sem dormir vários dias causa o mesmo efeito do excesso de álcool em termos de défice de atenção e menores reflexos. Daí que muitos acidentes de viação sejam causados por pessoas que ‘adormecem’ ao volante ou que estão sem dormir”.
O especialista recorda que cada um de nós tem uma necessidade específica em termos de tempo de sono, mas diz que, em média, todos precisamos de dormir sete horas a sete horas e 15 minutos por dia, E não é só o tempo que uma pessoa passa a dormir que é importante. “Durante o sono parece que está tudo bem, mas isso é uma imagem pouco real”, afirma. O campo das patologias do sono é muito abrangente, indo muito além das situações mais faladas de insónia ou sonambulismo e embora nas últimas duas décadas tenham havido avanços importantes na área da Medicina do Sono, a verdade é que grande parte da população não está sensibilizada para as patologias e distúrbios na área. Aliás, admite, “muitos médicos não estão despertos para estes problemas”.
Além da apneia, da síndrome das pernas inquietas e de outras patologias menos conhecidas, a investigação clínica e científica já conseguiu por exemplo encontrar razões fisiológicas para o problema da enurese nocturna (‘chichi na cama’) nas crianças mais velhas. “Os distúrbios do sono são muito mais comuns do que as pessoas pensam”, afirma o especialista. “Num estudo epidemiológico feito em São Paulo, no Brasil, que envolveu mais de mil pessoas, 24% da amostra tinha uma respiração anormal durante o sono e nem se apercebiam”, exemplifica.
E para ajudar a diagnosticar possíveis patologias, Guilleminault aconselha a que as pessoas estejam atentas a alguns sinais: “acordar cansado, com dores de cabeça e, no caso das crianças, estarem rabugentas, hiperactivas, com dificuldade em prestar atenção na escola, e fazendo chichi na cama…”.
Para uma boa noite de sono recomenda que se deixem as refeições mais pesadas para o almoço e não para o jantar e que se evitem o tabaco, as bebidas alcoólicas e o café antes de ir dormir. Se os problemas em dormir se prolongarem durante três semanas consecutivas ou mais, o melhor é mesmo procurar um médico, aconselha.
