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Jan 22

CONSTRUÇÃO LEVA À EMIGRAÇÃO DE MADEIRENSES PARA ÁFRICA

Mauritânia, Senegal, mas sobretudo Angola, têm sido as principais opções de muitas empresas madeirenses expandirem o seu negócio e, em consequência, recrutam centenas de trabalhadores. Ao que pudemos apurar, ascendem a cerca de 400 os novos emigrantes madeirenses neste sector, na sua maioria trabalhadores especializados. Ou seja, os madeirenses voltam a emigrar para conseguir trabalho e sustento para as famílias. Uma realidade há pouco tempo impensável, dado o desenvolvimento da construção civil na Madeira nos últimos 30 anos, que tinha revertido a tendência e trazendo trabalhadores de outros países para a Região, é hoje cada vez mais uma opção para o sector, nomeadamente em África. No início do ano, um anúncio no DIÁRIO dava conta da admissão de trabalhadores para a construção na Região, no continente, mas também para o ‘continente negro’. O recrutamento pedia serventes/ajudantes, ferramenteiros, marteleiros, armadores de ferro, pintores, pedreiros, manobradores de equipamento ligeiro, carpinteiros, estucadores, ladrilhadores, canalizadores, serralheiros, soldadores, electricistas, manobradores de grua-torre e chefes de equipa. Ou seja, quase todas as funções-base da construção civil. Sabe-se também, por notícias já publicadas pelo DIÁRIO, que empresas têm recolocado muitos dos seus efectivos mais experientes e especializados em obras fora do território insular. O caso da AFA, que tem mais de 200 madeirenses, entre encarregados, manobradores, engenheiros e administrativos em estaleiros naqueles três países acima referidos, é o mais conhecido.

Sindicato pouco pode controlar

Dado o silêncio quase unânime das construtoras, o DIÁRIO ouviu o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil. O seu presidente, Diamantino Alturas, confirmou a saída de grande número de trabalhadores, mas não consegue determinar, com precisão, quantos. Calcula em cerca de 400, de várias empresas. O sindicalista salienta que tem conhecimento de algumas empresas que estão a enviar, essencialmente, quadros qualificados. “Sei que há muitos subempreiteiros, que trabalhavam na Madeira, que agora estão em Angola, pela Soares da Costa, Teixeira Duarte e Tâmega. As empresas que ainda não foram, para lá caminham”, acredita. “Também a Avelino Farinha & Agrela tem centenas distribuídos pela Mauritânia, Senegal e Angola. No entanto, é difícil saber com exactidão quantos são, dado que quando se vão embora (os subempreiteiros) não dizem nada, alguns até ficam a dever dinheiro a trabalhadores. Piraram-se!”. Diamantino Alturas destaca que há trabalhadores das zonas de Machico, Caniçal e Estreito de Câmara de Lobos que estão em África, mas também em Espanha. “A Zagope, por exemplo, quer levar pessoal para lá, nomeadamente encarregados”, reforça. “É difícil calcular números exactos porque as empresas nunca divulgam os dados e os próprios trabalhadores pouco acrescentam. Alguns informam o sindicato por causa das carteiras profissionais, principalmente quando vão para Espanha, pois ali são rigorosos na inspecção das obras”. Com o desenvolvimento, há muitos e novos projectos, há muito trabalho. “Mas têm dificuldade em recrutar mão-de-obra qualificada. As empresas, geralmente, levam os quadros mais valiosos e lá recrutam os não qualificados”, aponta. “Acredito que, não sendo a crise só na construção, a emigração será cada vez maior nos próximos anos”.

ACRAM tem ajudado empresas

Mas não são só os madeirenses que estão a deixar a Madeira, também os estrangeiros, hoje, procuram novos mercados. Europeus do Leste e africanos vão para o Continente, Espanha e países de África mais necessitados de mão-de-obra. O presidente da Associação Cultural e Recreativa dos Africanos na Madeira confirma a falta de dados, mas acrescenta que, por exemplo, em Angola, o governo incentiva as empresas a enviarem quadros qualificados, desde que estas empreguem os trabalhadores de base. “A ACRAM já ajudou pelo menos nove empresas a irem para Angola, nem todas da construção. Mas outras vão pelos seus próprios meios”, garante João Paulo Matias. Uma realidade que poderá intensificar-se nos anos vindouros, acredita também o responsável. “A questão é que fazer um contrato de um trabalhador daqui para Angola sai muito caro”, por isso, afirma, só os técnicos especializados deverão ter mercado de trabalho.

Segredo é a alma…

As várias tentativas de chegar à fala com algumas das empresas de construção civil da Madeira esbarraram, quase sempre, na frase “não divulgamos informação sobre a nossa actividade”. Queríamos saber mais pormenores, números, a bem dizer. Segredo total. A excepção foi a Somague Madeira, cujo responsável, Luís Peres, garantiu que a empresa, criada para operar apenas em território nacional, não tem contribuído com nenhum dos seus efectivos madeirenses para as obras que a ‘empresa-mãe’ Somague leva a cabo em todo o mundo. O segredo é a alma do negócio, diz a tradição sobre a melhor forma de triunfar na vida empresarial. Para as empresas de construção civil, esta máxima aplica-se com todas as letras. Também dizem as novas teorias e práticas do marketing empresarial que a divulgação de informação, obviamente a positiva, sobre a empresa é a melhor e mais fácil forma de uma entidade privada ser conhecida e falada pelos melhores motivos na sociedade. Há quem já o faça, mas a ‘medo’. De quê?!

Fonte: DN

  • Janeiro 22, 2008
  • Élio Pereira
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