A comunidade ucraniana quer uma intervenção da embaixada, os imigrantes africanos já fizeram sentir o desagrado aos dirigentes da sua associação na Madeira. A redução nas vagas para trabalhadores extracomunitários e o apelo de Jardim para dar os empregos aos madeirenses não passaram ao lado dos estrangeiros que vivem na Região. Em 2007, mais de quatro mil imigrantes eram oriundos de países não comunitários.
Os primeiros a reagir às declarações do presidente do Governo no jantar da ASSICOM foram os ucranianos, que terão solicitado uma intervenção da embaixada da Ucrânia em Lisboa. Segundo Igor Cherdonovskyy, engenheiro mecânico e trabalhador da construção civil, o caso seguiu para Lisboa, mas na secção consular da embaixada ninguém tem conhecimento do facto. Nem que foi pedida a intervenção do embaixador, nem se o representante diplomático está a par das preocupações da comunidade ucraniana a residir na Madeira. Sem cônsul na Região, a comunidade está reunida em torno da Associação dos Povos de Leste e atenta a tudo o que se diz, sobretudo se as palavras são dirigidas aos empresários do sector da construção civil. A crise fez encerrar muitas empresas, há desemprego e menos obras. Se a isto se juntar uma preferência aos madeirenses, os empregos dos imigrantes extra-comunitários serão ainda mais afectados. “Mas vamos ter esperança, vamos ver como correm as coisas”, atalha Igor, de 36 anos, oito deles na Madeira. Empregado na construção civil, o imigrante ucraniano não sabe se o último discurso de Jardim e a redução nas vagas vão contribuir para um crescimento da discriminação e xenofobia em relação aos estrangeiros. “O que é certo é que há discriminação na Madeira, não é toda a população, mas tivemos problemas, alguns abusos por parte da polícia. Uma vez uma mulher polícia disse-me para ir embora, para voltar para a minha terra”. A crise e as palavras de Jardim não vão ajudar a acalmar os ânimos. Por isso, o pedido de intervenção da embaixada em Lisboa.
Preocupados, os imigrantes africanos na Madeira já deram conta do caso a Paulo Ferreira, guineense e dirigente da Associação dos Povos Africanos. “Estão preocupados com a redução nas vagas para trabalhadores estrangeiros, já se manifestaram desagradados”. O professor do 1º ciclo a viver na Madeira há oito anos diz que compreende a posição dos governantes, a necessidade de proteger os empregos para os naturais da região e do país. Só não sabe em que medida estas decisões poderão aumentar a desconfiança em relação aos imigrantes.
“Neste momento, a discriminação que existe é de uma ínfima parte da população, quase sempre pessoas de classes mais desfavorecidas e com menos instrução”. O que vai mudar, Paulo Ferreira não sabe e, apesar da preocupação, também não tem razão de queixa do Governo Regional. A Secretaria dos Recursos Humanos apoia as iniciativas da associação. Tanto a dos povos africanos como a dos povos de leste. De facto, até os islâmicos contaram com ajudas do Governo para a construção da mesquita, num espaço cedido em Santo Amaro.
‘Corte’ de 130 para 20 vagas
No entanto, é o chefe do Governo que apoia as associações o mesmo que faz declarações polémicas, que vai a jantares de empresários e apela a que se dê preferência aos madeirenses. O mesmo que, perante a crise e o desemprego, corta de 130 para 20 as vagas do contingente regional para trabalhadores extracomunitários. Segundo a Secretaria dos Recursos Humanos, em 2008, as 130 vagas não foram preenchidas, apenas houve 30 postos de trabalho preenchidos por estrangeiros de fora da União Europeia. Com esta baixa procura, o contingente foi cortado, pelo menos foi essa a justificação dada.
O corte e as declarações de Jardim motivaram reacções do SOS Racismo, voltaram a colocar a Madeira e o presidente do Governo na mira das organizações antidiscriminação. Em 2005, Alberto João Jardim andou nas páginas dos jornais ao dizer que, na Região, os comerciantes chineses e indianos não eram bem-vindos, eram concorrência desleal para os empresários madeirenses.
Números de 2008 conhecidos em Março
Os números mais recentes sobre a população estrangeira dizem respeito a 2007 e, segundo essas estatísticas, viviam na Madeira 4.143 imigrantes oriundos de países não comunitários. Entre cidadãos da União Europeia e extracomunitários, residiam 7.242 estrangeiros. Os dados de 2008 serão conhecidos em Março, mas é provável que se assista a uma diminuição de estrangeiros. Pelo menos foi essa a tendência de 2006 para 2007, o que coincidiu com o maior abrandamento nas obras públicas. Em comparação com o resto do país, a Madeira ocupa o 10º lugar do ranking das regiões com mais estrangeiros, com 1,65% da população imigrante no território português.
