A evolução das sociedades e dos mercados leva a que surjam necessidades em termos de novas profissões, de novas ofertas e oportunidades de trabalho. Sendo a Madeira uma região turística, as actividades ligadas directa ou indirectamente ao sector do Turismo têm um futuro promissor, como demonstra o Estudo Prospectivo dos Perfis Profissionais para o Reforço da Competitividade e Produtividade da Economia Regional para o período de 2007/2013, na posse da Direcção Regional de Qualificação Profissional.
O documento apresenta uma análise exaustiva às possibilidades de emprego na Região, sendo uma orientação para a abertura ou suspensão de cursos de formação profissional por parte da DRFP, que por sua vez, faz recomendações às escolas profissionais, do ensino secundário, centros de formação profissional, nomeadamente, como nos explicou Sara Relvas, directora regional da tutela.
Mostra também que áreas é que, por alguma saturação do mercado, perdem prioridade em termos de acções ou cursos de formação. A este nível, a responsável explica que «não existem profissões saturadas, mas ciclos de saturação». Assim, há que ter presente, por parte de quem gere ou organiza as iniciativas formativas, como está o mercado nesse momento e como estará dentro de dois ou três anos. «Pode haver áreas que durante dois ou três anos estão saturadas. Tem de haver uma coordenação muito forte entre as entidades de Educação e formação no sentido de coordenar essa abertura de cursos. É isso que temos feito ao nível de escolas profissionais, entidades formadoras, e escolas secundárias. Há uma preocupação em não abrir cursos dos quais o mercado está saturado e esperar que este absorva todos os profissionais para então voltar a abrir novos cursos».
Quanto às profissões consideradas emergentes, o documento identifica alguns «clusters», sendo o primeiro um «mega-cluster» referente ao «Turismo e Acolhimento: Qualificações e Competências para o Futuro». Este segmento «exige cada vez mais a utilização de serviços especializados e respectivos recursos humanos qualificados de muitos outros sectores e áreas», lê-se no estudo.
Assim, e por alíneas, surge por exemplo a área da Gastronomia e Restauração, em que as competências relacionadas com a gestão da restauração com componentes de localização, ambiente, decoração do espaço, animação e eventos, qualidade e segurança alimentar, marketing e promoção, nomeadamente, continuarão a ser promissoras. Nesta alínea, surgem ainda qualificações relacionadas com novas tecnologias e processos de restauração e eficiência energética, dieta, nutrição e saúde, concepção e confecção de menus/dietas específicas, informação turística. Estas áreas destinam-se a perfis profissionais que vão desde gestores, técnicos de organização de eventos, director de restauração, chefe/gerente de restaurante, barman, pasteleiro, cozinheiro, por exemplo.
No «mega-cluster» em análise, surge a alínea referente ao Alojamento. Aqui, as qualificações/perfis psicológicos apontam para actividades como consultores em cultura, lazer e educação, consultor em natureza e aventura e consultor em entretenimento e eventos, consultor de gastronomia e restauração, em alimentação e saúde. O relatório final do Estudo Prospectivo lança algumas recomendações ao nível do Ensino Superior, nomeadamente o reforço da oferta em Organização e Gestão de Eventos e possível formação de novos perfis, como os de consultor em cultura, lazer e educação, consultor em entretenimento e eventos, e consultor em natureza e aventura.
Na área das Agências e Operadores, são também vários os perfis profissionais apresentados, com semelhanças aos anteriormente referenciados na vertente da consultadoria. Nesta componente, uma aposta na formação terá de passar pelo reforço dos conteúdos necessários nos cursos de Turismo e de Gestão e Marketing (marketing turístico com especialização regional).
O «mega-cluster» do «Turismo e Acolhimento» tece ainda considerações e sugestões de profissões emergentes nos sectores de Saúde e Bem-Estar, recomendando por exemplo, a possível formação de perfis de gestor/consultor em Turismo de Saúde e Bem-Estar, em termos do ensino superior; nos sectores de Natureza e Ruralidade, defendendo também a formação de gestor/consultor em Turismo de Natureza e Ruralidade e de Natureza e Aventura; no âmbito de «Cultura e Património», sugerindo o mesmo tipo de profissão de consultadoria nesta área, bem como na área de Cultura, Lazer e Educação; no sector do Turismo de Desporto e Aventura, e nos segmentos do Entretenimento e de Negócios, Congressos e Incentivos.
Profissões nas áreas agro-alimentares com procura
Por outro lado, uma área promissora é a agro-alimentar. Segundo o estudo, este sector tem muito por oferecer em termos de oportunidades de trabalho, com o devido reforço da qualificação, nas áreas do Ambiente e Sustentabilidade, que englobam profissões desde empresários agrícolas, pecuários, florestais, fabris, directores, técnicos, analistas, responsáveis por equipamento e manutenção, nomeadamente. Surgem ainda sugestões no referido cluster «Agro-alimentar», na áreas da Dieta, Nutrição e Saúde, na Segurança Alimentar, nos Mercados e Competição, ao nível de profissões de topo, em termos de direcção, até consultores, técnicos, operadores de maquinarias, entre outras.
O terceiro foco sectorial de competitividade exposto no Estudo Prospectivo dos Perfis Profissionais refere-se ao «Ambiente, Energia e Oceanos», que se subdivide nos segmentos do Turismo, Lazer e Educação Ambiental, de Produtos Verdes e Ecodesign, de Gestão de Recursos e de Sistemas Ambientais, de Energias Alternativas e Renováveis e de Tecnologias ambientais e Tecnologias energéticas. Nestas áreas, são várias as potencialidades profissionais, em termos de técnicos de vários sectores de actividade, como de planeamento e gestão ambiental, conservação da natureza, de inspectores, auditores, guias de turismo ambiental, consultores, técnicos de I&D, designers, projectistas, técnicos de projecto e construção, operadores de estações de tratamento de águas, operadores florestais, técnicos de jardinagem e espaços verdes, operadores de manutenção de campos de golfe, entre vários outros. São também apontados geocientistas, desenhadores de sistemas de refrigeração e climatização, técnicos instaladores de sistemas solares térmicos e fotovoltaicos, de sistemas eólicos, de sistemas de bionergia, por exemplo.
Já no quarto foco sectorial, referente aos «Serviços às Empresas Intensivos em Conhecimento», os segmentos dividem-se em profissões emergentes em termos de I&D, conteúdos, aconselhamento, intermediação, tecnologias (instalação, operacionalização, conservação/manutenção e formação. Nesta área, são inúmeras as actividades a serem exploradas profissionalmente, desde a consultadoria em Alimentação e Saúde, Cultura, Lazer e Educação, Natureza e Aventura, Entretenimento e Eventos, Gestão de projectos em TIC, arquitectos, projectistas, serviços de Ambiente, Comércio, Segurança, Transportes, Logística, Finanças e Fiscalidade, Qualidade, Gestão e Administração, entre outras.
Das Pescas aos Serviços de Saúde
No quinto ponto do relatório, encontram-se «Outras Dinâmicas Sectoriais», como Pescas e Aquicultura e Transformação do Pescado, Transportes, Comércio, Construção Civil e Obras Públicas, Cultura e Património, Artesanato e Saúde e Serviços Sociais.
Nestas áreas, as potencialidades profissionais e respectiva formação apontam para perfis como mestres, motoristas mecânicos, pescadores, marinheiros, técnicos de transformação do pescado, entre outras no que se refere às Pescas e Aquicultura e Transformação do Pescado; a gestores de redes e sistemas de transportes, gestores de frota, técnicos de planeamento e ordenamento de território, técnicos e operadores de condução e técnicos e operadores de conservação e manutenção das redes e das frotas de várias modalidades, desde transportes aéreos, marítimos rodoviários pesados e ligeiros, no que se refere aos Transportes; no Comércio, as actividades vão de empresários, gerentes, técnicos de vitrinismo, gestor comercial, responsáveis de marketing, encarregados de loja, chefes de secção, vendedores e operadores de venda, entre outras. No âmbito do Artesanato, há por exemplo as vertentes dos técnicos de “marketing research”, designers, gestores de produto, consultores culturais, encarregados de loja, promotores de vendas, entre outras. Na Saúde e Serviços Sociais, e entre outras competências, o estudo aponta profissões relacionadas com o apoio aos cuidados de saúde (serviços, processos e tecnologias) e com os cuidados pessoais e de apoio à vida pessoal e familiar. Nos profissionais directamente envolvidos no apoio aos cuidados de saúde e na prestação de cuidados pessoais, apontam-se por exemplo, auxiliares de acção médica, vigilantes, acompanhantes de crianças, técnicos de acção educativa, monitores de actividades ocupacionais, animadores sócio-culturais, assistentes familiares e de de apoio à comunidade, agentes em geriatria, entre outros.
Mais especialistas para cuidar do Idoso
Na área da Saúde, uma lacuna que poderá surgir nas próximas décadas, prende-se com as especialidades e recursos humanos para os cuidados com a população idosa. Segundo informações que nos foram prestadas pela Secretaria da tutela, as perspectivas de futuro, com o envelhecimento da população e aparecimento de doenças associadas à velhice, apontam para a necessidade de mais médicos especialistas e técnicos vocacionados para tratar as problemáticas relacionadas com os idosos. Assim, as profissões e especialidades ligadas à geriatria e cuidados ao idoso poderão estar em falta, se não houver a capacidade de antevisão e preenchimento desta lacuna, e de incentivar as pessoas a aderirem a este mercado profissional. Um problema que não se sentirá apenas na Madeira mas também no País.
De momento, na Região, e pelo que nos foi dito, não há falta de enfermeiros ou de técnicos nos serviços de saúde que prestam atendimento aos idosos. O problema que se sente actualmente, prende-se com o facto de não haver ajudantes auxiliares em número suficiente para os serviços de ajuda domiciliária.
Faltam bons mestres na Região
Faltam bons mestres na Região. A opinião é de João Carlos Gomes da ASSICOM, que considera que as profissões antigas, mais manuais, como de canalização, pintura, carpintaria, estão a perder qualidade. «Faltam os tais mestres das artes. Antigamente, falávamos dos profissionais destas áreas como sendo os mestres e os bons profissionais, como marceneiros ou serralheiros estão em falta. Foram profissões que entraram em desuso, infelizmente, pela apetência dos mestres em se tornarem empresários».
João Carlos Gomes esclareceu que apesar de defender o regresso de profissões antigas, não está a pretender um retrocesso, mas sim o retorno de profissões necessárias. É que, explicou, «vivemos numa fase de recuperação e não de inovação, vivemos numa época de manutenção das obras já existentes», para as quais são precisas «pessoas com feitio e jeito». O dirigente da ASSICOM ressalvou, no entanto, que o trabalho específico é realizado actualmente, como se vê nas obras. «Há pessoas que se dedicam a isso e há empresas de serviços 24 horas por dia, mas é preciso haver o gosto pela arte. É preciso voltarmos a ter os mestres de antigamente Não é saudosismo da minha parte, mas é querer as coisas a serem feitas bem com um bom trabalho», sublinhou ainda o responsável que lembrou que a associação de que é membro realiza acções de formação nas áreas ligadas à Construção Civil e que têm tido boa aceitação.
Fonte: JM
