Hoje, Dia Mundial do Teatro, nem tudo é comédia. Cinco actores do Teatro Experimental do Funchal (TEF) têm dois meses de salário em atraso e vão a caminho do terceiro porque o grupo, que envolve ainda muitas mais pessoas e depende financeiramente do subsídio do Governo Regional (GR), ainda não recebeu uma resposta em relação à verba referente ao triénio 2009/20011.
Segundo Élvio Camacho, que denunciou a situação, os colegas não recebem desde Janeiro e mesmo o próprio acabou por prescindir do salário, como agora tem o rendimento das gravações da telenovela ‘Flor do Mar’, da TVI, actualmente líder de audiências, onde desempenha o papel de ‘padre Miguel’.
Esta não é a primeira vez que os salários se atrasam, reconheceu. Aconteceu em 2003, quando sofreram um corte de 200 mil para 155 mil euros ano; aconteceu em 2005, quando não receberam qualquer verba do GR e tiveram de contrair um empréstimo de 60 mil euros, que acabaram de pagar em 2008, e volta agora a ensombrar a companhia, com mais de trinta anos de actividade. “Felizmente posso contar com o vencimento do meu trabalho na novela. Estamos a falar de cinco pessoas que não têm outros rendimentos. Portanto, conseguimos foi funcionar com o sistema de emprestar dinheiro, como eu emprestei dinheiro para esta produção”.
Para já ninguém fala em greve ou em desistir. O amor à camisola fala mais alto, mas não durará para sempre: “Não pensamos logo na desistência, mas é claro que as pessoas, dependendo da idade que elas têm, apetece-lhes tomar… a vida está sempre… os caminhos estão sempre em aberto, com novas perspectivas profissionais, e há quem se canse. Ao fim de um tempo há quem se canse. Muitos de nós já têm filhos e quando somos mais novos é mais fácil manter a chama”. Segundo o actor e encenador, chegada a esta fase, resta pouco: “Quando nos acontece isto, a única coisa que nos resta é o prazer de fazer o espectáculo, mas nós não vivemos, não paga as nossas contas”.
Cortes certos
O apregoado corte nos subsídios para a cultura é praticamente certo e eles próprios estão conscientes que a diminuição será inevitável, mas o valor da redução das verbas será determinante para a programação da companhia profissional. “Agora o que acontece é que estamos à espera de uma resposta concreta para podermos definir o nosso futuro em função do apoio que teremos”.
Apesar de a resposta nos anos anteriores ter saído por volta de Maio, como aconteceu em 2006 com a definição das verbas para o triénio passado, a demora não é compreendida pelo membro da direcção do TEF. A candidatura foi apresentada em Novembro e a actividade começa em Janeiro: “Se não fizéssemos nada era uma justificação para não termos respostas, mas não. O nosso trabalho não merece esta espécie de desatenção”, disse. O desabafo continuou: “É tão eterna esta questão. Parece que lá estamos nós a bater no mesmo, e é isso que nos custa. Quer dizer, conseguir organizar a nossa actividade, sempre em função de tanto relatório, de tanto projecto, de tanta justificação de despesa, para depois… enfim, acho que há alguma indiferença perante a nossa situação, uma indiferença que o TEF não merece pelas provas que tem dado”.
A companhia, com mais ou menos verbas, tem sido apoiada pelo GR quase sistematicamente ao longo dos últimos 20 anos e mesmo que quisesse, afirmou Élvio, não conseguiria manter a mesma actividade sem o dinheiro dos contribuintes.
Mas vamos às contas: “Nós neste momento temos despesas fixas, e não estou a falar da produção em si, estou a falar da máquina que faz funcionar o TEF, da manutenção do guarda-roupa, da limpeza, pagamento de luz e água, nós temos despesas fixas à volta dos 7.500 euros mensais. E isto as despesas fixas, telefones, internet, essas coisas assim. E depois com as produções, normalmente gastamos 20 mil euros”, que inclui a verba para pagar os actores contratados.
Para atenuar estes valores, contam com algum dinheiro que recebem dos espectáculos, e que é reinvestido, com as doações de patrocinadores e com pessoal destacado da Secretaria de Educação e Cultura: “Temos trinta e tal mil euros de receitas e cinquenta e tal mil euros de apoios em géneros – os nossos mecenas são generosos – e também temos pessoal destacado pela SREC, a quem não poderíamos nunca pagar um salário”.
Questionado sobre quanto estavam preparados para perder, em termos de cortes, deu a volta e respondeu: “Nós estamos preparados para continuar a merecer o reconhecimento das entidades públicas(…) o que nós não estamos preparados é para funcionar num regime amador, como há mais anos. Não é isso que a gente quer”. Um empréstimo, como contraíram em 2005 quando não receberam qualquer verba do Governo, também não aceitam como solução, pois levaram três anos a pagar os 60 mil euros pedidos à banca.
A comédia ‘Greve de Sexo’ está em palco, mas é o desânimo que reina nos bastidores. Não passa pela cabeça dos actores fazer greve porque estão de corpo e alma na profissão: “É muito importante nós mantermo-nos à tona. Mas os náufragos não aguentam muito tempo lá em cima agarrados às tábuas… depois afundamos, afundamos porque desanimamos”, avisou, enquanto espera a resposta prometida pelo secretário regional de Educação e Cultura para o final do mês.
Fonte: DN
