A empresa pode ser a mesma, e o trabalho até pode ser parecido, mas quanto se trata de ‘lay-off’, as regras que se aplicam aos trabalhadores da Volskwagen são diferentes de país para país.
Que o digam os colaboradores da Autoeuropa, em Portugal, que vão ser confrontados com a perspectiva de pararem o trabalho durante quatro dias por mês, até ao final do ano, sem receber.
Ao contrário, os seus colegas alemães têm direito a receber 60 por cento do salário líquido, caso não tenham filhos. Se o agregado familiar for composto por mais de duas pessoas, então essa percentagem sobe para 67 por cento, e pode prolongar-se por um ano e meio. O valor é pago não pela empresa, mas sim pela Agência Federal do Emprego, uma instituição pública que canaliza os valores para a empresa, que os distribui pelos trabalhadores.
Trabalhadores em Portugal com tratamento desigual
Na Alemanha, desde Fevereiro que várias empresas do grupo Volskwagen estão a recorrer a este instrumento de redução de custos e de produção: em Emden, Zwickau e Dresden, além da fábrica-mãe, em Wolfsburgo, as paralisações afectam 61 trabalhadores do grupo, a que se juntam mais mil trabalhadores em Hannover, que só deverão regressar ao trabalho depois das férias de Verão.
Em Portugal, os trabalhadores só teriam direito a receber se o período de ‘lay-off’ fosse consecutivo durante dez dias.
Nas conversas que a agência Lusa manteve com os trabalhadores da empresa do grupo Volkswagen, em Palmela, o desânimo era notório, com alguns a admitirem que, se houvesse uma segunda votação do pré-acordo com a administração, chumbado a 17 de Junho, a votação seria diferente.
Decisão da administração vista como “forma de pressão”
“O ‘lay-off’ nunca é bom para ninguém, porque ninguém quer perder dinheiro. Quando foi a votação do pré-acordo decidimos pelo não, mas penso que, se houver uma segunda votação, haverá muita gente a mudar de opinião”, disse à Lusa Vítor Fernandes, sublinhando que a administração “deixou as portas abertas” a essa possibilidade.
Para Vítor Fernandes, a determinação da administração em avançar com os 10 dias de ‘lay-off’ ao longo do tempo, e não de forma consecutiva (que seria menos penalizadora para os trabalhadores), pode ser vista como “uma forma de pressão”.
“A empresa não aceita juntar os 10 dias de ‘lay-off’ para conseguir aquilo que pretende: trabalho ao sábado praticamente grátis. Em todo o país o ‘lay-off’ é aplicado em vários dias seguidos, mas aqui são só quatro dias por mês”, disse.
“Penso que a empresa vai adoptar as medidas que já anunciou – 10 dias de ‘lay-off’ até Dezembro – para ver se cedemos às pretensões deles”, corroborou Sérgio Florêncio, interrogando-se sobre as verdadeiras motivações da empresa.
“Por que nos estão a pedir para trabalhar sábados?”
“Se a situação está má, então por que nos estão a pedir para trabalhar sábados? É porque eles sabem que vem aí muita produção. Nós já cedemos nos sábados a 200 por cento, baixámos para 100 por cento e agora querem tirar-nos isto também”, disse.
Por sua vez, Fernando Martinho disse haver “uma grande divisão entre os trabalhadores”, acrescentando que “também há pessoas que estão dispostas a abdicar dos 10 dias de ordenado relativos ao ‘lay-off’, mas continuando com a opção de poder vir, ou não, trabalhar ao sábado”.
A Lusa tentou ouvir a administração da Autoeuropa, que não se mostrou disponível para comentários.
Fonte: JM
