Jornal da Madeira – Que balanço se pode fazer um ano e meio depois de a sua equipa ter tomado posse no Conselho Médico da Ordem na Madeira?
José França – Tudo o que depende de mim e do meu grupo e que prometi, está praticamente feito. A ampliação e remodelação da sede está feita e será inaugurada depois do Verão. Espero que os colegas, brevemente, possam vir cá, não só para tratarem dos seus assuntos pessoais, como para frequentarem este local que é de todos.
JM – Houve profundas obras de remodelação e ampliação.
JF – Era fundamental fazermos isto. Já que não temos Casa do Médico na Madeira, temos aqui um espaço para os colegas conviverem.
A Casa do Médico existe em Sesimbra e no Porto, sendo que em Lisboa a sede tem restauração, salas de congressos, mas não funciona como pousada. Na Região, chegou a haver uma tentativa para a criar, mas não foi conseguida.
JM – É uma ideia para amadurecer?
JF – Acho que é muito prematuro falar nisso. Houve uma tentativa, há uns anos, de um grupo de médicos, mas infelizmente as coisas não avançaram. E eu acho que temos condições para as pessoas que quiserem, virem cá durante o dia. Esta é a casa de todos os médicos.
JM – Mas com os médicos a trabalharem até às 21 ou 22 horas, não é fácil poder frequentar a sede.
JF – Não é bem assim. Eu trabalho muito, mas tenho disponibilidade para a Ordem, para a famílias, para o lazer. É uma questão de gestão e de organização.
JM – E isso de ter organização evitava que os médicos, muitas vezes, deixassem os doentes à espera duas e três horas?
JF – Muitas vezes isso não acontece porque os médicos estão no café. Sei que isso também é verdade e é possível que existam casos. Mas eu espero que um dia seja possível haver medicina privada e medicina pública. O ideal seria ter as coisas separadas. Mais de 90 por cento dos médicos trabalham nos dois lados. Eu, por exemplo, tento chegar à consulta antes da hora, mas na semana passada cheguei com uma hora e meia de atraso. Imprevistos acontecem muitas vezes. E apesar de eu ter o meu consultório e a clínica, o meu trabalho é no Hospital. Sou médico do serviço público. A privada é um part-time.
JM – Há muito médicos a pensar assim?
JF – Espero que sim.
JM – Os médicos estão a passar mais horas no Hospital?
JF – Sim, há Bloco Operatório de manhã e de tarde, há consulta externa de manhã e de tarde, só as visitas às enfermarias é que se fazem de manhã por causa das visitas dos familiares dos doentes de tarde. Isto está a mudar. Mas o espaço é exíguo e temos de o rentabilizar.
Falta rever exames complementares
JM – Quando houver o novo Hospital, que será maior, voltam a trabalhar só de manhã?
JF – O novo Hospital não será muito maior do que este, está é melhor organizado. Em termos de enfermarias, o que conheço do projecto, não será muito maior. É uma questão de organização.
JM – Que outros projectos tinha quando tomou posse?
JF – A formação era um dos nossos objectivos. E temos feito formação aos médicos. Há outra matéria que espero que esteja concluída até ao final do ano, que é a revisão da Convenção, que caminha a passos largos para ser concluída.
Se as pessoas se recordam, disse no início que a Convenção não se resumia à alteração do preço da consulta, que tivemos de fazer, este ano, para 55 euros. E estamos também a trabalhar nos exames complementares de diagnóstico. Espero que as tabelas estejam prontas até 31 de Dezembro, para podermos ter a Convenção em pleno o mais depressa possível.
JM – A ”Gripe A” deverá vir em força neste Inverno. Como está a preparação para enfrentar uma eventual pandemia? Os médicos estão protegidos?
JF – Temos de pensar que esta é uma gripe com características particulares. Obviamente que esta é nova em termos de vacinação, de profilaxia, mas acho que estamos a empolar um pouco a gripe. No bom sentido, é claro, mas é preciso ter algum cuidado. Só que demasiado cuidado também causa alarmismo. As pessoas não saem para férias, não trabalham por causa da gripe. Eu, como médico, faço a minha vida da mesma forma. Já me protegia, já tinha cuidados, lavo sempre as mãos quando vejo um doente, mas isso eu já fazia. E acho que o interrogatório que se tem feito na porta do hospital é positivo para separar as pessoas suspeitas de todas as outras.
JM – Em caso de pandemia, há médicos, enfermeiros e auxiliares suficientes para acudir às necessidades?
JF – A Região, segundo o presidente do Instituto da Administração da Saúde, está preparada.
JM – Mesmo que seja necessário alterar os planos dos médicos?
JF – Acho que não vai ser necessário. Isto faz lembrar um pouco a BSE, toda a gente andava alarmada, felizmente as coisas foram ultrapassadas. A doença continua, mas as pessoas já não estão alarmadas. Vamos chegar a uma altura em que já não se vai falar nisso.
Ou se tem cursos ou não se tem
JM – Recentemente falou-se na abertura do terceiro ano do curso de Medicina na Universidade da Madeira. Qual é a sua opinião sobre isso?
JF – Não sou contra a Faculdade de Medicina da Madeira, defendo um ensino de qualidade. Espero que os anos que estão a ser leccionados na Região sejam de qualidade. O terceiro, neste momento, com a estrutura hospitalar que temos, talvez não seja muito fácil. Acho que não deve haver cursos a meio gás. Ou há na totalidade ou não. Eu defendo isso, provavelmente vou ser atacado quando alguém ler esta entrevista. mas acho que um curso deve ser dado do princípio ao fim no mesmo local. Depois, para fazer as pós-graduações, as pessoas devem poder sair, abrir horizontes. Nem que seja para ver outras pessoas trabalharem.
JM – Ao contrário de toda a Europa, em que se entra facilmente nos cursos e depois os alunos ficam ou não preparados, mas apenas no final, no nosso país fecham-se as portas logo no início e depois torna-se necessário contratar médicos estrangeiros, por não haver suficientes. Como é que isto se resolve?
JF – Estamos a pagar os erros da década de oitenta, quando os “numeros clausus” limitaram as entradas nas faculdades. Provavelmente, daqui a quinze anos estaremos a ter excesso de médicos. Hoje em dia há duas faculdades de Medicina em Lisboa, uma em Coimbra, duas no Porto, uma em Braga, uma na Covilhã e agora uma no Algarve, Madeira e Açores, a que se juntam aqueles que estão no estrangeiro e que voltarão. Não tem havido cuidado nos ratios. E vai chegar uma altura em que serão ultrapassados.
JM – Mas com a separação do público e do privado isso não fica facilitado?
JF – Vamos chegar a um tempo em que se não tivermos cuidado, poderemos ter excesso de médicos. Devemos ser um pouco mais selectivos, fazer estudos para daqui a 15, 20 anos. Não é abrir vagas sem se estudarem os ratios.
JM – E quanto às especialidades, estão de acordo com o que é recomendado?
JF – Falo pelo hospital da Região e acho que as especialidades estão mais ou menos bem estudadas. Só que há imprevistos que acontecem, pessoas que adoecem, que saem da Região para trabalhar noutros locais…
JM – Há falta de especialistas em que áreas?
JF – Essencialmente na Anestesiologia, Pediatria e Medicina Geral e Familiar. Mas o que me preocupa mesmo é a Anestesiologia. o serviço é muito pequeno para dar resposta a tantas especialidades. Não vale a pena, por exemplo, um Bloco Operatório funcionar 24 horas, se não houver Anestesistas.
JM – Mas esses não podem trabalhar mais horas? Ou seja, depois do acordo com a administração do Hospital, os médicos não estão a trabalhar mais horas, que agora são parcialmente pagas?
JF – Estamos a trabalhar mais nas Urgências, mas o dinheiro não é tudo. Se eu não tiver condições de trabalho, podem dar-me um contrato milionário que não aceito.
JM – E os médicos têm, neste momento, condições de trabalho versus condições financeiras?
JF – Não somos diferentes dos outros. Quando aceito um contrato, negoceio as condições. Atendendo ao momento actual, se me perguntar se valemos mais, acho que sim, mas também acho que temos as condições de trabalho possíveis. Este hospital foi feito para três ou quatro especialidades, para Medicina, Cirurgia, Obstectrícia e Ortopedia. Neste momento existem todas as especialidades, mais de 20. Claro que com esta estrutura de quase 40 anos, as condições não são as desejadas, mas são as possíveis.
Entendimento da língua é obrigatório
JM – Concorda com a vinda de médicos estrangeiros para o serviço de Urgência durante os picos de férias e aos fins de semana, com todas as falhas de comunicação que daí podem advir?
JF – Não sou xenófobo. como País de emigrantes que fomos, não podemos fechar as portas aos que vêm de outros países. Relativamente à dificuldade de linguagem, em Portugal, não podem exercer Medicina em Portugal sem passarem pela prova de comunicação médica que é feita por nós.
JM – Isso são os que vêm fixar-se na Região. O que é que acontece com os que vêm só aos fins de semana e que falam espanhol ou caboverdiano?
JF – Não deveriam. Nenhum médico pode exercer sem fazer uma prova de comunicação.
JM – Que tipo de prova é essa?
JF – Uma prova base, que engloba coisas que são importantes para uma consulta médica. A prova de comunicação médica engloba questões que são muito importante num acto. Quando fazemos as provas, temos o cuidado de certificarmo-nos que o médico está a entender a queixa do doente. Que não está a confundir uma dor de barriga com dores toraciacas.
Acho que as coisas estão mais calmas
JM – Passada toda a celeuma inicial sobre horários e chefias, está tudo muito mais calmo agora. Voltou a tratar-se das coisas como “gente crescida”?
JF – Já éramos. As mudanças radicais levantam sempre alguma resistência. O que costumo dizer e que não foi feito, é que as coisas de casa, devem ser feitas dentro de casa. Não digo que os jornalistas não devessem saber, mas acho que há coisas que não deviam sair. Acho que não há necessidade de se fazer publicidade disso, quando tenho problemas dentro de casa, tento resolvê-los dentro de casa, o meu vizinho e os meus amigos não têm nada que saber, a não ser que eu lhes peça ajuda.
JM – Mas as coisas estão efectivamente mais calmas, ou nós é que já não sabemos tantas coisas?
JF – Acho que estão mais calmas. Foram as mudanças e eu espero que continuem como estão e que as pessoas continuem empenhadas no seu trabalho, para que os utentes fiquem bem servidos.
Exigem mais dos médicos do que aquilo que podem
JM – Há muitos médicos com processos disciplinares, actualmente?
JF – Há alguns, mas isso, na maioria das vezes, não significa culpa. As pessoas exigem do médico aquilo que não têm direito. Ou seja, acham que foram mal tratadas e em vez de tentarem resolver os problemas junto da Ordem, por exemplo, vão logo para os Tribunais. Quando a Ordem é chamada, ouvimos o utente e o médico e em 99 por cento dos casos, o médico não tem culpa.
JM – O que quer fazer daqui para a frente antes de terminar o mandato?
JF – A revisão da Convenção é fundamental. Aquela batalha que eu sabia que seria difícil, porque não depende de nós. Quando depende de nós trabalhamos a qualquer hora, de dia e de noite, Temos feito isso, temos trabalhado, temos conseguido as coisas. Mas garanto, prometo aos meus colegas, que vou rever a Convenção. Se não conseguir, vou ter de perguntar aos meus colegas se querem, ou não, o modelo actual. Quero a Convenção arrumada, para depois ter tempo para limar as arestas.
JM – Então a convenção vai estar em vigor ainda antes de meados do próximo ano.
JF - Nem eu admito outra coisa. Quando digo que sim, é sim mesmo.
