A “Portugal tem hoje níveis globais de doutorados, pessoas com capacidade e vocação para investigar muito próximos da União Europeia. É uma capacidade instalada de geração do conhecimento que se perde se não for transformado em valor económico”. Estas palavras foram referidas ao JM por Artur Santos Silva, presidente da Cotec Portugal (uma associação ligada à inovação) que esteve recentemente na Madeira como orador convidado de um evento da ACIF – Câmara de Comércio e Indústria da Madeira.
Defende que as empresas têm de usar mais as universidades e que estas criem mais empresários, sobretudo qualificados, que “têm de ter conhecimentos tecnológicos, de marketing, organizacionais e de gestão, para lançar novas empresas. E que tenham vontade de correr riscos”. Reconhece, no entanto, que, hoje em dia, quase todas as universidades têm programas de empreendedorismo.
Mas não é somente isto que considera necessário. Sublinha que se pode ser empreendedor ou a criar uma empresa ou, dentro de uma já existente, “ser um factor e agente de mudança”.
Mais do dobro no empreendedorismo
Artur Santos Silva refere ainda que, em matéria de empreendedorismo, em 2007, Portugal apresentou um indicador que “é mais do dobro do que tínhamos em 2004”.
O estudo, feito por uma entidade internacional junto de 42 países, 18 dos quais na União Europeia, revela ainda que Portugal é aquele que apresenta uma taxa de empreendedorismo mais alta.
Considera que o empreendedorismo de criação do pequeno negócio, como um café, é importante, mas, numa economia globalizada, onde “estamos muito dependentes do êxito que tivermos no mundo, é fundamental o empreendedorismo ser qualificado”.
O que se nota nas suas palavras é fazer sentir a urgência de um maior “casamento” entre a massa cinzenta das universidades com a das empresas que poderão estar em bruto, por esculpir.
Isto porque, conforme evidenciou, entre 2005 e 2007, Portugal foi o país da União Europeia com maior taxa de crescimento da despesa em I&D, quando expressa em percentagem do PIB. De um valor de 0,8% em 2005, aumentou para 1,2%, o que traduz um crescimento de 46%. Um valor que se situa muito acima do crescimento médio dos países europeus que, no mesmo período, se situou abaixo de 1 por cento.
Em simultâneo com o crescimento da despesa em inovação e desenvolvimento registado entre os referidos dois anos, o número de investigadores ETI (medidos em equivalente a tempo integral) conheceu um aumento de 32%. Passa de 21 mil para perto de 27 mil. Ou seja, passa de 3.8 para 5.0 investigadores ETI por mil activos.
Como nasce um empreendedor
Mas, afinal, como nasce um empreendedor?
O presidente da Cotec Portugal apresenta duas razões: umas negativas e outras positivas.
No que toca às primeiras,as razões negativas, o empresário que ainda continua ligado ao banco BPI, aponta o desemprego (real ou potencial), a falta de perspectivas de progressão profissional na sua organização, o entendimento de que trabalhar por conta de outrem premeia mais a antiguidade do que o mérito, e o excesso de burocracia ou de política para se atingir a promoção profissional.
Quanto às razões positivas sublinha seis pontos: ser o patrão de si próprio (que permite tomar decisões, trabalhar com quem, quando e a que horas quiser), a possibilidade de obter compensações financeiras mais significativas do que trabalhando por conta de outrem, a possibilidade de envolvimento na operação global de um negócio (desde o conceito à materialização, das operações/vendas, às relações com os clientes), o prestígio associado à liderança de um negócio, a oportunidade de constituição de património (que pode ser conservado, passado a gerações seguintes ou vendido) e, por fim, o sentido de contributo para a sociedade.
Além deste conjunto de razões, frisa que um empreendedor nasce com uma boa ideia, combinada com experiência, forte vontade de iniciar um negócio por conta própria, bom planeamento e muito trabalho. Estes ingredientes “podem conduzir a uma empresa atractiva e compensadora”.
Artur Santos Silva e Belmiro de saída
Em relação à direcção que preside na Cotec Portugal diz que é tempo de renovar os quadros pelo que irá deixar este ano o cargo, tal como acontecerá com Belmiro de Azevedo, seu colega neste desígnio de fomentar a inovação no tecido empresarial português. “Entendemos que é muito importante que o movimento associativo se renove. Estamos aqui para servir, mas não estamos para assumir isto permanentemente nas nossas mãos. Temos muitos dirigentes e empresários capazes de fazer isso ainda melhor do aqueles que estão”.
Fonte: JM
