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Mai 20

‘ELAS’ GANHAM MENOS 279 EUROS DO QUE ‘ELES’

“Sempre foi assim e assim continuará a ser. Os homens ganham mais que as mulheres? Não me surpreende!” É assim, com simplicidade, que uma empresária do ramo das flores comentou, quando lhe mostramos as conclusões de um estudo que dá conta que, na Madeira, ‘elas’ ganham, em média, menos 279 euros do que ‘eles’, isto no sector dos serviços, onde trabalham 80% das empregadas no privado.

Para começar, a média dos salários na Madeira é menor que a da média nacional, 663 para 730 euros, isto nos trabalhadores por conta de outrem. Pelas estatísticas do emprego, referentes ao 2º trimestre de 2007, o vencimento líquido dos trabalhadores na Madeira é 67 euros mais baixa que a do país. Ou menos 9%, em média.

Segundo o estudo do Partido Comunista, do total de 117.300 trabalhadores na Região Autónoma, 53.800 são mulheres e a grande maioria delas (45.900) trabalham por conta de outrem. As restantes 7.100 trabalhadoras têm rendimentos por conta própria.

Outra conclusão é que a maior parte delas (80%) está empregada no sector terciário (serviços), 42.800 no total, e em quase igualdade no sector primário (agricultura e pescas) e no secundário (indústrias extractivas, transformadoras, energia e construção), com 5.100 e 5.900, respectivamente.

Do Porto Santo à Ponta do Sol

E nesta comparação quem sai a perder são as mulheres, que por exemplo no sector terciário regional, em Outubro de 2005 tinham um salário médio mensal bruto (remuneração base, acrescida de subsídios de trabalho extraordinário) 279 euros mais baixo que os homens madeirenses do sector dos serviços e menos 73 euros que as trabalhadoras do continente.

Em termos percentuais, a diferença salarial ‘elas’ versus ‘eles’ é de 27% (o ganho médio na RAM é de 752,62 euros), com várias diferenças a nível concelhio. No sector dos serviços, o concelho com menores diferenças salariais entre géneros é a Ponta do Sol, onde as mulheres ganham menos 109 euros (-15%) que os homens. Com maiores diferenças é, curiosamente, o concelho da ‘dupla-insularidade’, o Porto Santo. Aqui, as mulheres ganham menos 368 euros (!) que os homens, ou um diferencial de 35% abaixo do salário dos homens nos serviços.

Os restantes concelhos a seguir, com salvaguarda das diferenças salariais também a esse nível: Machico -313 euros (-33%); Santa Cruz -291 (-26%); Calheta -282 (-30%); Porto Moniz -277 (-33%); Funchal -272 (-26%); Santana -243 (-29%); São Vicente -193 (-24%); Ribeira Brava -166 (-22%) e Câmara de Lobos -145 (-19%).

Justifica o relatório que a “diferença salarial entre homens e mulheres é uma realidade transversal a toda a sociedade portuguesa (e não só), mas na RAM assume especial relevância”.

Há cada vez mais excepções

Apesar de reconhecerem que a sua situação é diferente da que o estudo indica, os dois exemplos que encontramos, quando fomos auscultar a população, são excepções à regra que indica o estudo do PCP.

O caso da Maria Inês Freitas Araújo, natural da Camacha, herdou da mãe a banca de flores no Mercado dos Lavradores. “Nunca trabalhei para outros, nem quero, pois não gosto de ser ‘mandada'”, frisa, apesar de reconhecer que nem sempre o negócio corre de feição. “Não sei se pagam bem ou mal às mulheres, mas não sei se no geral as diferenças serão essas. Nem acredito!”, conclui.

No caso de Cristina Caldeira, natural do Funchal, 23 anos, licenciada em Línguas, trabalha desde 2004. Na loja de artigos de artesanato sente-se bem, gosta do trabalho pois coloca em prática o que aprendeu no curso, comunicando com os clientes estrangeiros e nacionais. “Visto que comprei casa há pouco tempo, dou-me por satisfeita com o salário que tenho”, assegura. E confidencia: “Não recebo o salário mínimo, mas o meu caso até é diferente do que diz. Ganho mais do que o meu marido”.

Ricos & Pobres

Tendo por base os números do Anuário Estatístico de 2007, o sector privado emprega na Madeira 76.800 trabalhadores (apesar de os ‘Quadros de Pessoal’ enviados ao Ministério do Trabalho contabilizarem apenas 68.500) e o sector público 20.200, sendo que 19.500 estão por conta própria e 800 (valor estimado) vivem a expensas de familiares que trabalham.

Os números não enganam: Na RAM, em cada 100 empregados, 82,7 fazem-no por conta de outrem; 16,6% são por conta própria; 82,1% dos trabalhadores por conta de outrem têm contratos sem termo; 37,8% dos trabalhadores são jovens entre os 15 e os 24 anos; uma família clássica na Madeira tem, em média, 3,33 indivíduos.

O relatório conclui que, para uma família ‘clássica’ madeirense usufruir de um rendimento médio nacional teria de ter um aumento salarial de 30%. Sem isso e segundo o Instituto Nacional de Estatística (Orçamentos Familiares, 31/03/2008), a despesa total média ‘per capita’ na RAM é a mais do país, com 5.288 euros, por ano e por pessoa. A nacional é de 6.993 euros.

Citando os dados das Contas Regionais de 2004, o factor ‘remunerações’ ascendeu a 1,780 milhões de euros dos 4,156 milhões do Produto Interno Bruto. Ou seja, 42,8% da riqueza produzida por cá vai para quem trabalha e o restante é para quem tem o capital, os empresários.

Fonte: DN
  • Maio 20, 2008
  • Élio Pereira
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