Se há precisamente um mês dizíamos que a taxa de desemprego registado tinha atingido o valor mais alto da ‘era Jardim’, os primeiros dados de 2009 mostram que a Madeira caminha para ter valores nunca vistos, chegando em Janeiro aos 9.932 inscritos no Centro de Emprego.
A bater todos os recordes até agora disponíveis – dados desde Janeiro de 1970 -, as estatísticas são claras e mostram não querer dar ‘tréguas’ ao mais optimista dos governantes ou ao mais contido dos economistas. Ninguém arrisca fazer previsões ou apresentar uma fórmula para minorar este ascendente deprimente para a economia e para a sociedade madeirense.
Não é para menos. O valor mais alto que se registara até hoje, era de Fevereiro de 1979 (9.465 inscritos), enquanto o mais baixo dera-se em Julho de 1982, quando estavam 3.692 pessoas sem trabalho e, antes da Autonomia, em Maio de 1975, que registara 3.153 desempregados. Os dados do ‘Estado Novo’, dada a pouca fiabilidade, podem até ser ignorados nesta contabilidade.
O aumento de 6,8 por cento no mês passado, face ao último mês de 2008, cujos 9.302 desempregados oficiais já se afigurava como dos piores meses de sempre, e de mais 12,4 por cento em relação ao período homólogo (Janeiro de 2008, com 8.838) são claros sinais que vamos ter um ano ainda mais complicado do que previsto, a menos que o clima económico dê uma volta e volte a dinamizar-se e as empresas comecem a criar postos de trabalho. A tendência, para já, é de despedimentos ou, no mínimo, de manutenção dos actuais postos, a bem da estabilidade social da Região.
Os dados divulgados ontem pelo Instituto do Emprego e da Formação Profissional mostram que até houve mais ofertas no final de Janeiro, comparados com Dezembro de 2008, de 123 para 146 propostas (+18,7%), apesar de estarmos bem longe, em termos homólogos, do que se verificara em Janeiro do ano passado (280 ou uma quebra de quase 48%.
Quanto a novos inscritos, ressalvam-se os 1.818 desempregados que procuraram o Instituto Regional do Emprego ao longo do mês de Janeiro – mais 99,1% que em Dezembro (913 inscritos) e mais 32,9% que em Janeiro de 2008 (1.368).
Em termos de novas ofertas colocadas pelas empresas, registe-se as 286 opções de trabalho, confirmando o aumento (+28,3%) em relação a Dezembro último (223) e uma ‘razia’ se tivermos em conta o primeiro mês do ano passado, que tinha 507 novas ofertas disponíveis.
Por outro lado, o número de colocações por mês teve uma subida de mais de 44%, de 102 para 147 pessoas que conseguiram encontrar um novo trabalho. Em Janeiro de 2008 tinham sido 191, o que mostra também as dificuldades em preencher as ofertas existentes, significando que houve uma quebra de 23% um ano depois.
“Não há varinhas mágicas”
Questionado David Caldeira sobre o que se pode fazer para inverter a situação, este foi claro: “Não há varinhas mágicas, já que teríamos de questionar as causas. Será que a Madeira teve um crescimento sustentado? Era previsível esta situação? Penso que sim. O que originou isto? Temos de ver que se há mais homens desempregados, poderá significar que estes números têm um forte contributo da Construção Civil como consequência do menor volume de obras públicas e particulares. Mas é de crer que, nos próximos tempos, não haja solução para dar a volta ao avanço do desemprego”.
O fiscalista acrescenta que, talvez, a solução no imediato passe por reduzir as taxas de contribuição para a segurança social e para o Fisco, tal como tem feito o Governo da República.
BE exigirá demissão de Brazão
Do Bloco de Esquerda recebemos um comunicado em reacção aos dados do desemprego, que culpa o Governo Regional, Alberto João Jardim e Brazão de Castro, desta situação de “verdadeira emergência regional”, por terem implementado “políticas neo-liberais” e agora “tardam as medidas para debelar a crise, combater o desemprego e implementar medidas de ajuda aos desempregados”.
No documento assinado pelo coordenador do BE-Madeira, Roberto Almada, adiciona “os cerca de 20 mil trabalhadores precários” que “poderá redundar num aumento considerável das situações de miséria extrema”, acrescenta. E conclui com uma exigência: se não foram tomadas medidas urgentes, a incluir num Orçamento Rectificativo regional, “totalmente direccionado para as áreas sociais”, o BE “exigirá a demissão imediata do titular da pasta dos recursos Humanos” e o assumir de “responsabilidades políticas” do restante elenco governativo.
Tudo tem sido feito
Numa reacção aos novos dados, o secretário regional dos Recursos Humanos, Brazão de Castro, acredita que apesar da subida da taxa de desemprego em Janeiro, as novas medidas (cuja regulamentação foi publicada ontem no Jornal Oficial da Região) podem ajudar a minimizar os efeitos do crescimento do desemprego. “Esperamos um bom acolhimento das novas medidas”, frisa. “As medidas, por si só, não criam emprego, mas acredito que as empresas que as acolham e as pessoas que delas possam beneficiar possam ser ajudadas. É indiscutível que as linhas de crédito para apoiar as empresas poderão contribuir para melhorar a vida económica e, directamente, contribuir para criação de mais emprego. Da nossa parte, procuramos tudo o que está ao alcance”.
Outros dados a acrescentar: 57% dos inscritos são homens e 43% mulheres; 29% são desempregados de longa duração e 71% estão inscritos há menos de um ano; dos 9.932 desempregados há 6.577 a receber o subsídio e 488 têm direito ao rendimento social de inserção. Significa que há 2.867 pessoas que não recebem qualquer apoio estatal.
