Há uma certa juventude que, desencantada com a escola e com a crescente falta de emprego na construção civil, procura cada vez mais a agricultura nomeadamente nos meios rurais. Os tempos mudaram e a crise que atravessa todos os sectores fazem repensar as opções. Também por isso, o DIÁRIO sabe que há jovens a encarar a agricultura não apenas com a visão tradicional, de mero meio de subsistência, mas já como “uma oportunidade de negócio.”
No entanto, a concorrência externa, que inunda o mercado regional de produtos hortícolas a preços mais baratos e em grandes quantidades, atormenta também quem trabalha arduamente a terra.
A visão já negocial ou empresarial da agricultura por parte das camadas mais jovens, quando hoje se assinala o Dia do Jovem Agricultor, é transmitida ao DIÁRIO pelo presidente da Associação dos Jovens Agricultores da Madeira-AJAMPS, em vésperas de passar a presidência a Simão Santos. Apesar de tudo, comenta, a ideia de que o agricultor é um ‘coitadinho’ que não ganha para as despesas, está a passar à história, apesar das dificuldades que existem nesta como em qualquer área de actividade. Já têm explorações de dimensão razoável e uma produção também significativa, com investimento nas mais diversas culturas.
Globalização não ajuda
Já no terreno, em plena exploração agrícola na Caldeira, em Câmara de Lobos, o jovem Maurício Ferreira confessa que o grande obstáculo ao sector é a concorrência dos produtos hortícolas vindos do exterior, que ‘inundam’ o mercado insular, a baixo custo, dificultando a vida ao produtor regional. O próprio ferry do ‘Armas’, que transporta a fruta espanhola para a comercializar a baixo custo na Região, está à vista de todos, com efeitos negativos na produção ‘made in Madeira’. Mas, acrescenta, esta forma de concorrência “é inevitável”, porque toda a gente sofre “os efeitos da globalização e da chamada economia de mercado.” Mesmo assim, “é uma realidade que não facilita a vida a quem trabalha a terra e que tem custos cada vez mais agravados com as sementes, os fertilizantes e os pesticidas, para além dos encargos elevados com a Segurança Social.” No sexto ano de escolaridade, Maurício Ferreira pôs fim à escola. Até lá, era meio dia na escola e meio dia a ajudar o pai na fazenda. A opção pela actividade agrícola foi inevitável: “Não tinha jeito para estudar e decidi tirar o curso de formação para jovens agricultores da AJAMPS”, conta, recordando um passado recente. Hoje, com 28 anos de idade, trabalha em parceria com o pai, este de 68 anos de idade, uma fazenda com dez mil metros, vocacionada para a horticultura. É uma vida “difícil”, que requer “cuidados contínuos” para não hipotecar a colheita, que está sujeita à instabilidade própria da natureza e do mercado, mas que dá para viver e em condições razoáveis.
Mil euros mensais
A meio da tarde de ontem, pai e filho amarravam grandes extensões de tomateiros. Mas a produção, ao ar livre, é bem diversificada e até inclui os morangos. Ao fundo, os viadutos ainda levaram parte do terreno – já pago pelo Governo Regional – mas dá e sobra para desenvolver a agricultura. Num recanto, não passava despercebida a garrafa de vinho com o copo entornado para matar a sede e, por vezes, resistir ao frio que tem sido intenso.
O custo mensal da produção é sempre variável porque o sector agrícola é muito instável e esbarra com vários condicionalismos. Ainda assim, se tudo correr de feição, ganha uma média de mil euros mensais. Mas quando a colheita é menos favorável, pode rondar os 500 euros. Justiça seja feita, acrescenta o jovem agricultor, o Governo Regional “deita a mão”ao sector. Os subsídios, de origem comunitária, são diversificados e variáveis consoante as produções, mas constituem uma grande ajuda ao produtor. Falando no seu caso em particular, este produtor diz receber uma ajuda oficial que ronda os três mil euros anuais. “Nada mau” para quem tudo conta e é conquistado “a pulso.” Muitos jovens na droga
Ao lado, o pai também amarra os tomateiros. Quando se lhe pergunta se a juventude procura hoje mais a agricultura, sorri com ironia e comenta: “Eles arrastam-se na escola até aos 18 anos e, depois, como não dão para aquilo, metem-se na droga e nos furtos. Não têm dinheiro para suportar os vícios e por isso roubam quem trabalha.”
Por vezes, há dificuldades com a água de rega que chega da histórica Levada do Norte. Não chega para acudir a todas as necessidades, admitem ambos os agricultores, naturalmente de gerações diferentes. Por isso mesmo, sugerem a existência de reservatórios, na serra, com água de rega armazenada para colmatar as faltas. Seria uma forma de manter os terrenos verdes o ano inteiro, mesmo em tempo de calor, alertam ao DIÁRIO a título de sugestão.
Perto das 17 horas, o Maurício e o pai continuaram a trabalhar tarde dentro. A mãe, a viver perto da fazenda, adiantava o jantar. Os outros sete irmãos já têm a vida resolvida de outra forma e são independentes. Este jovem agricultor, solteiro, continua a gostar da profissão que abraçou, particularmente num altura “de crise geral.”
Já não é ‘o Coitadinho’
Ainda a exercer funções como presidente da AJAMPS, Marcelino Vasconcelos adianta que conta com 1400 associados, com idades compreendidas entre os 18 e os 40 anos, oriundos de toda a Região. É sabido que as zonas com maior produção estão centradas em Santana, Calheta e Câmara de Lobos, sendo a actividade predominante a horticultura.
Os apoios comunitários aos jovens agricultores constituem um aliciante e vão desde a instalação – com comparticipações a atingirem os 75% – à produção e até mesmo à comercialização. Uma aposta na manutenção de um sector tradicional que é também importante para a economia e paisagem regionais.
Por outro lado, os tempos vindouros poderão também ser favoráveis, caso se venham a concretizar os apoios comunitários em negociação e que se prendem com o III Quadro Comunitário.
Também Marcelino Vasconcelos, que cede o lugar de presidente a Simão Santos a 15 de Maio, admite que o problema do sector é a globalização do mercado e a consequente concorrência externa. Uma situação que condiciona a actividade mas que conta com a resistência do produtor regional.
