Não conheceu outro trabalho e pode-se dizer que a vida de Arlindo Freitas foi feita atrás do balcão do ‘Apolo’. Foi admitido a 10 de Agosto de 1971 tinha 16 anos. Como não queria nada com escola, a saída foi o trabalho. “Os meus pais queriam que eu estudasse, mas eu não tinha interesse pela escola. Ainda cheguei a ir à Escola Industrial e comecei um curso de montador electricista, mas a filha do senhor Coelho perguntou-me se eu queria vir trabalhar para o ‘Apolo’ e eu aceitei logo”, recorda.
“Quando cheguei cá fui para a cozinha trabalhar a fazer sandes. Nós tínhamos uma secção que só fazia sandes. Aprendi com os mais velhos. Depois de sair da cozinha fui aprender a trabalhar no bar. Já tinha uma pequena ideia e essa foi sempre a minha intenção”.
Como pegou no trabalho no dia 10 do mês, o primeiro ordenado foi 410 escudos. Depois passou a ganhar 910 euros por mês. Não se arrependeu mais da escolha, embora tivesse tido a oportunidade de sair daqui. “Para ir trabalhar para o governo. Houve um cliente cá da casa que em 1974 que convidou-me. Não era para ser presidente do governo (risos)… Também tive a oportunidade de ir para a Guarda Fiscal, quando estava na tropa”.
Arlindo Freitas é de conversa fácil. E na resposta pronta às muitas perguntas feitas, revela: “Tenho muito orgulho em trabalhar no ‘Apolo’. Ganhamos amor por isto. Em primeiro lugar pelos colegas que aqui encontrei quando entrei, que a maior parte já faleceu e que eram uns excelentes profissionais. Tudo o que sei aprendi com eles”.
A relação com os chefes, os colegas, mas sobretudo com os clientes mais assíduos, “fazem-nos gostar do nosso trabalho. Eles vinham todos os dias e logo que eles entravam à porta nós já sabíamos o que nos iam pedir e de pronto eles estavam a ser servidos”.
O agora Barman de 1.ª lembra-se de tirado café para muita gente importante. “Lá dentro nós temos fotos de alguns dos clientes mais famosos. Recordo um grupo, do senhor Alexandre do Marítimo, que vinha todos os dias aqui discutir bola”.
O ‘Apolo’ continua a ser o café de referência da cidade. Pela sua localização, embora o nosso entrevistado considere que é mais “pelo serviço que prestamos que aos clientes. O segredo é conhecermos os clientes, termos uma equipa se que se dá bem e quando o cliente chega aqui é de imediato servido”. Embora hoje em dia a maioria das empresas olhe para os trabalhadores como uma peça, “no ‘Apolo’ penso que ainda há estima entre os patrões e os empregados, pois o ambiente é mais familiar e a sociedade que é dona disto é a mesma desde 1971”. De uma coisa o barman tem a certeza. “O prestígio da casa é feito por nós, trabalhadores. Oitenta por cento do nome do ‘Apolo’ deve-se à primeira equipa que aqui trabalhou. Grandes profissionais, que chegaram a ser chamados para ir servir o Chefe do Estado, o Almirante Américo Tomaz, no Santo da Serra”.
Aos 54 anos, Arlindo Freitas é um homem feliz e realizado. Porque trabalhou sempre no ‘Apolo’ e naquilo que mais gosta de fazer: o contacto com os clientes. E o barman mais conhecido dos funchalenses viveu recentemente a alegria de ter visto a filha licenciar-se.
“Aquilo que mais queria é que ela estudasse e não fizesse como eu. Quis que ela aproveitasse o que eu recusei dos meus pais. Tive sorte pois ela sempre quis estudar e soube aproveitar, pois licenciou-se em Ciências da Cultura” diz com indisfarçável orgulho, acrescentado. “Quando olho para trás não deixo de reconhecer que foi um erro eu não ter estudado. Não sei se estava melhor, ou pior, mas devia ter estudado”.
Refira-se, por fim, que o empregado mais antigo do ‘Apolo’ em actividade é Joaquim Nunes. Com 42 anos de casa escusou-se, de forma simpática, a dar a entrevista, delegando em Arlindo Freitas a representação dos mais velhos.
Fonte: DN
