Perplexidade, revolta, medo e lágrimas. Não há como ficar indiferente à dor dos cerca de cem trabalhadores dispensados, ontem, pelo Hotel Savoy Classic.
José Rocha tomou um sedativo, para lidar com a situação. Foi talvez o único trabalhador a esboçar um sorriso irónico na hora do adeus. Sem lágrimas, mas com muita mágoa, o funchalense de 56 anos nada sabe do futuro. Talvez vá fazer voluntariado, diz.
Durante 41 anos, José Rocha serviu o Savoy, no restaurante cúpula. Ontem, foi um dos contemplados com a dispensa laboral, sem aviso prévio, um lamento ou uma palavra de conforto. “Sinto-me como se me estivessem a expulsar por não ter pago o aluguer”, desabafa o homem.
Mais do que uma cozinha, o espaço onde Maria Silva confeccionou refeições durante oito anos era como uma segunda casa. Como ela, todos os colegas receberam o aviso de despedimento. De todos, a cozinheira é a mais inconformada. As lágrimas ‘lavam-lhe’ o rosto ininterruptamente. “Isto é uma grande injustiça”, realça. Maria tem 48 anos e poucas esperanças de conseguir novo emprego.
Depois do choque, a mágoa foi um dos sentimentos que mais transpareceu, ontem, entre os funcionários dispensados pelo Savoy Classic.
Se o fecho do hotel já não constituía novidade, a verdade é que a maioria dos trabalhadores tinha esperança de ser integrado em outras unidades do grupo. “Nem nos avisaram, depois de tantos anos aqui não merecíamos sair assim”, lamenta Narciso Soares.
Tal como o câmara-lobense, os restantes funcionários do Savoy queixavam-se da falta de dignidade na hora dos despedimentos. De acordo com um dos despedidos, a administração do hotel terá mandado distribuir, ao início da tarde, cerca de cem sacos para as pessoas arrumarem os seus pertences. “Parecemos cães”. Narciso Soares bem se esforçava para conter as lágrimas.
Brancos, sem inscrições, os sacos cheios com uma vida de trabalho multiplicavam-se, ao final da tarde, transportados por homens e por mulheres que se concentravam, na parte traseira do Savoy, para ‘colher’ algum alento nas palavras dos dirigentes sindicais.
No seu saco, Narciso Soares levava o desespero. Em casa, aguardava-o a mulher grávida e um filho de sete anos. Primeiro foi a esposa, agora também o marido ficou sem trabalho.
O corredor da morte no Savoy
Tal como nos recorda José Manuel, homem que há 8 anos trabalha na cozinha, “nada fazia prever isto. Sabíamos que o hotel ia fechar para obras, mas com falta de pessoal nos outros hotéis – Royal Savoy e Savoy Gardens (ex- Vila Ramos) – nunca nos passou pela cabeça que avançassem para o despedimento colectivo”.
A indignação era alimentada pelo conhecimento da realidade do hotel: “Ontem servimos lá em baixo 101 jantares com dois cozinheiros, quando aqui existiam oito. Eles estão a pedir ajuda a empregados do CELF e a comprar coisas fora, quanto têm trabalhadores que têm famílias e contas para pagar”.
Recordando que a administração da empresa deixou “os trabalhadores num estado de nervos durante quase um mês”, este empregado da cozinha testemunha o pavor que todos sentiram quando eram chamados para “o gabinete da D. Tina. Aquilo era o corredor da morte”.
