Cabelos brancos, mãos e rosto enrugados de mais de 40 anos de trabalho. Semblante triste. Os homens não choram, rezam as crónicas, mas ontem o inesperado último dia de trabalho dos colaboradores da empresa Siet Savoy fez chorar homens e mulheres que deram fama ao Hotel Savoy.
Uma onda de tristeza e de revolta marcaram a saída dos trabalhadores desta unidade hoteleira, que pela boca de Horácio Roque – e perante o silêncio de Joe Berardo – ficaram a saber que o hotel onde trabalharam toda a sua vida ia fechar.
O processo não podia ser mais macabro. Centenas de sacos de plásticos, às escondidas, foram de manhã postos na porta de entrada para que o pessoal ao fim do dia levasse os seus pertences. Uma vida de trabalho era para ser ‘arrumado’ numa tarde, com seguranças privados com ordens de não deixar entrar no hotel quem durante décadas entrou para dar o melhor de si ao serviço da casa. Um aviso colocado no ‘placard’ convocava os trabalhadores para uma reunião, às 14 horas.
Roque e Berardo deram a cara aos trabalhadores. Mas impediram os jornalistas de entrar, deixando-os na Avenida do Infante, longe da recepção. Berardo saiu pela porta principal, sem falar. Roque saiu escondido por uma porta lateral. Lá dentro os colaboradores choravam como crianças, relata Teresa Spínola, a empresária que explorava um cabeleireiro.
“Lá dentro está toda a gente a chorar, a maioria delas tem muitos anos de serviço. Acho que isto não foi tratado da forma mais correcta. Isto provoca uma dor no coração, ver pessoas que deram tantos anos de vida a este hotel serem dispensadas assim.
Dada a notícia, explicada em prejuízos de um milhão de euros o ano passado e de um previsível prejuízo de 3 milhões para este anos, os patrões deixaram os seus colaboradores entregues aos advogados.
Do lado da empresa a justificação: “As alterações da conjuntura económica mundial, o aumento da oferta e da qualidade das unidades hoteleiras que têm vindo a surgir na Região provocaram um decréscimo acentuado e continuado ao nível da ocupação do Hotel Savoy”, lê-se no comunicado enviado para as redacções, que a Siet Savoy nem teve o cuidado de distribuir aos jornalistas que à porta esperavam uma explicação.
Diz Horácio Roque, em comunicado: “Trata-se de uma decisão difícil mas que se adivinhava de inevitável”. Porque a demolição deste edifício é o primeiro passo para a construção do novo Hotel Savoy.
Queixam-se os trabalhadores, revoltados, que as garantias dadas de que “o grupo garante o cumprimento integral das disposições legais” de nada lhes serve. Porque com mais de 50 anos de vida e com o recurso crescente a outorcing – prestação de serviços por empresas externas – por parte da Siet Savoy são poucos os que acreditam numa solução profissional futura.
Empregado do mês
Albino Freitas foi protagonista de uma história bizarra. Foi eleito na semana passada o ‘Emprego do mês’. Uma ironia, pois foi a primeira vez em 27 anos de trabalho que foi eleito para logo de seguida ficar a saber que será despedido. “O comendador Joe Berardo disse nos jornais e na televisão que não haveria um único trabalhador despedido. deixaram-nos durante este tempo todo num ambiente depressivo, bem procuramos disfarçar perante os clientes, mas só nós é que sabemos o nosso sofrimento. Faltaram à verdade”, diz revoltado, não aceitando as justificações, pois até ontem ” a diária foi vendida a mais de duzentos euros e se não temos mais clientes é porque eles deixaram de promover e vender o hotel”.
Celina Sousa há 38 anos que trabalha no Savoy. Estava tão triste que a revolta estava sufocada por um discurso enervado, sem lágrimas. “Eles deram-se 5 dias para saber as condições, os nossos direitos, e durante os próximos 3 meses vamos receber o ordenado, depois, em Julho, vamos ser despedidos”.
Os direitos de Jardim
Alberto João Jardim afirmou ontem, na inauguração de um caminho na Boaventura (ver pág. 5), não ter conhecimento do que está por detrás dos despedimentos no Hotel Savoy, sublinhando que “tudo depende do acordo colectivo de trabalho, e da leis de trabalho, entre o empresário e os trabalhadores”. Adiantou que “toda a gente deve defender os seus direitos”, mas salientou também que “a obra tem de ser feita”, afirmando que a Madeira tem conseguido andar para a frente em grande parte devido aos investimentos privados. Nesse sentido, referiu que a Região “não pode estar a prescindir dos milhões de contos que vão ser postos em circulação com aquela obra”.
Fonte: DN
