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Mai 08

PEDRO GOUVEIA “O IEM OLHA PARA AS PESSOAS COMO PESSOAS, NÃO COMO NÚMEROS”

Uma semana depois das comemorações do Dia do Trabalhador, o presidente do Instituto de Emprego congratula-se com o facto de a Região apresentar a taxa de desemprego mais baixa do País e considera que a proximidade é uma marca que deve imperar em todos os organismos públicos.


O mercado de trabalho na Madeira vive um pico sem paralelo com uma situação próxima do pleno emprego. A que se deve esta realidade?

A vários fatores. Desde logo pe­la conjuntura da economia, que está muito favorável. Aliás, o mercado de trabalho não pode estar indissociado deste fator e a economia madeirense tem estado a crescer continuamente ao longo dos últimos meses, e isto também permite que o mercado de trabalho desenvolva- se e que também estejamos a viver atualmente uma situação de praticamente pleno emprego. O ano por de 2025 acabou com uma taxa de­semprego de 5,4%, o que, atendendo àquilo que é a nossa população ativa, é uma situação de praticamente pleno emprego.

Qual é o perfil dos desempregados cá na Região?

É do mais variado possível. Vai desde pessoas sem nível de instrução até licenciados. Temos vários perfis. Pessoas que trabalham, que nunca trabalharam; pessoas que já trabalharam. mas que por razões e circunstâncias da vida estão de momento nesta situação da fragilidade de estarem desempregados. Portanto, o perfil que aqui temos do desempregado é do mais variado que existe.

E qual a percentagem de imigrantes inscritos no Instituto de Emprego?

Em termos globais, nós não temos es­ses dados separados, porque lá está, o Instituto de Emprego trata toda a gente por igual. São pessoas. Não são pessoas oriundas de países versus portugueses. Os desempregados são desempregados. Agora, o que eu posso dizer é que em termos absolutos, temos cerca de 510 de­sempregados registados no Instituto de Emprego oriundos de outros países, sendo que cerca de 140 são da União Europeia e os restantes fora do espaço da União Euro­peia. Venezuelanos, na sua maioria, numa minoria dos países asiáticos.

E desses imigrantes, tem conhecimen­to de haver casais onde o homem e a mulher estão os dois à procura de em­prego?

Também temos essa situação. Temos também situações em que só um dos côn­juges está inscrito, o outro não. Portan­to, temos aqui uma grande variedade de situações. Temos casos de pessoas que apesar de estarem inscritas no Instituto de Emprego, estão ativamente à procura de trabalho, não estão só dependentes do Instituto de Emprego.

Entre a inscrição e a chamada para o mercado de trabalho, quanto tempo, em média, é que os candidatos têm de aguardar?

Essa é uma questão delicada, porque nós temos situações de desempregados que se registam e que conseguem em­prego praticamente no imediato, outros que estão numa situação de desemprego de longa duração, mas isto também tem a ver com a sua área de especialização e também com a procura que o mercado faz em relação a esse tipo de pessoas. Portanto, não consigo dizer em concreto que há uma média específica. Para aque­les que estão disponíveis para o mercado de trabalho, independentemente da sua experiência profissional ou do seu nível de instrução, temos pessoas que, em média, dois, três meses conseguem um trabalho.

É justo afirmar que há pessoas que es­tão acomodadas ao subsídio de desem­prego?

É preciso desmistificar um bocadinho esta questão do subsídio de desemprego, porque ele não é eterno. As pessoas têm direito a um subsídio de desemprego, sim, se tiverem tido uma experiência profis­sional anterior e tiverem feito os respe­tivos descontos para a Segurança Social. E, depois, a própria Segurança Social é que determinará, consoante o número de contribuições feitas, qual é o tempo máximo que o subsídio de desempre­go durará.

O tempo e o valor…

E o valor. Agora, em relação aos de­sempregados registados no Instituto de Emprego, com direito ao subsídio de de­semprego, há uma lei que é nacional, que determina que não podem recusar ne­nhum trabalho que lhes seja oferecido na área pela qual estão a receber o sub­sídio de desemprego. Se aparecer uma proposta de trabalho para essa mesma área, a pessoa não pode dizer não. Pode dize-lo, mas depois perde o subsídio de desemprego automaticamente.

Então não há ninguém acomodado ao subsídio de desemprego.

Pode acontecer caso não haja oferta para essa situação. E aí pode acontecer, dependendo das áreas de onde as pessoas venham e que estejam a auferir o subsí­dio de desemprego, mas pode acontecer haver uma situação em que não há ou o perfil não é indicado para aquela em­presa que está à procura de mão de obra.

Quais as áreas onde é mais difícil em­pregar mais pessoas?

Eu diria que as áreas mais difíceis, que é onde nós temos o registo maior, são precisamente nos trabalhos de limpeza, restauração e hotelaria.

Qual é o problema nestas áreas?

De modo geral, as pessoas sentem-se desconfortáveis por causa dos horários de trabalho, quando são trabalhos por turnos ou quando são repartidos, por­que isto não permite uma conciliação entre a vida profissional e a vida familiar. Nós atendemos também estas situações. Nem sempre é possível, mas na medida do possível e na medida que a lei nos permita, nós tentamos sempre conciliar tudo. Também temos alertado às entida­des empregadoras que procuram desem­pregados no Instituto de Emprego para conseguirem, de alguma forma, ajustar um bocadinho melhor os horários.

E têm tido boa recetividade?

O Instituto de Emprego, quando faz o enquadramento e o ajustamento da pes­soa, é sempre para a zona de residência, ou a zona limítrofe. Portanto, eu não vou colocar naturalmente um desempregado registado que viva no Caniçal ou em Ma­chico a trabalhar no Porto Moniz. O Ins­tituto de Emprego tem esse cuidado de, quando procura o perfil da pessoa para a empresa, de ter em atenção o conce­lho onde reside e o concelho onde está a ser feita a oferta de trabalho. O Instituto de Emprego olha para as pessoas como pessoas, não como números.

E há pessoas suficientes a trabalhar no Instituto de Emprego para fazer face a esse trabalho de proxi­midade?

As que temos neste momento conseguem dar conta do recado, passe a expressão popular. Claro que não me chatearia se tivésse­mos um reforço, mas nós temos também tido o conforto de, ao longo do tempo, com os mapas de recruta­mento que são utilizados pela Secretaria  Regional das Finanças e pela Secretaria Regional de Inclusão, Trabalho e Juven­tude, de serem acomodadas as necessi­dades que o Instituto de Emprego tem em termos de pessoal. Temos bons profissio­nais no Instituto de Emprego que conse­guem dar conta do recado. Se tivéssemos mais, não reclamaríamos, com certeza.

O Instituto de Emprego trabalha em rede com as empresas de trabalho tem­porário sediadas na Região? São uma mais-valia?

O Instituto de Emprego trabalha com todas as entidades que possam propor­cionar trabalho às pessoas. Não é só com as empresas de trabalho temporário, é com todas as entidades que estejam na disponibilidade de receber os nossos can­didatos e se candidatarem aos diversos programas de emprego que o Instituto tem. São 20 medidas, 20 programas de emprego que o Governo Regional pro­porciona através do Instituto de Empre­go. Portanto, não há desculpa para não se trabalhar.

Há algum tipo de fiscalização em rela­ção às pessoas que encontram trabalho por conta própria e que continuam a receber o subsídio?

Nós funcionamos muito em parce­ria com a Segurança Social, portanto, sabemos perfeitamente. Podemos não saber no dia, na hora, no minuto, mas, mais cedo ou mais tarde, há sempre a informação de sabermos sempre quem está no ativo, mesmo que este­ja registado no Instituto de Emprego. Agora, se me perguntar se há pessoas que estejam em casa a receber o sub­sídio de desemprego e que, entretan­to, estão a fazer biscates, bem, isso aí às vezes conseguimos, de alguma forma, descobrir, outras vezes não, mas também, se isso acontece, é com uma minoria.

Veio munido com várias folhas, com muitos números. Quer partilhar alguns connosco?

Em relação à taxa de desemprego que nós temos neste momento, gostaria aqui de deixar bem claro que nós estamos, em todos os níveis, praticamente abaixo da média nacional. São valores que nos deixam bastante otimistas.

E em relação ao futuro?

O Instituto de Emprego vai começara se virar para a área das novas tecnologias. Procurar ter aqui programas que consi­gam fixar os jovens que estejam formados na área da tecnologia para conseguir­mos ter programas que os fixem cá na Região, consigam se inserir no mercado de trabalho e assim também as empre­sas poderem oferecer-lhes um contrato de trabalho.

Qual a taxa de contratação na Região?

Esse é outro número que eu gostaria também de deixar aqui, que é a satisfa­ção que nós temos de verificar que após a realização dos programas de emprego pelo Instituto de Emprego, nós temos uma taxa de contratação nas entidades privadas de 75%, o que é muito, muito positivo. Significa que os programas fun­cionam, significa que as medidas que o Governo Regional está a implementar nesta área de combate ao desempre­go e das políticas públicas de emprego funcionam. Fechámos o ano de 2025 com uma taxa de desemprego de 5,4%. o primeiro trimestre de 2026 também está abaixo da média nacional. Portanto, são números que nos deixam bastante esperançosos para o futuro.

Sei que mantém uma política de portas abertas. Que importância é que tem es­ta relação humana entre as instituições e a população?

A humanidade. Nós somos seres hu­manos. Nós temos que confraternizar uns com os outros. Porque as pessoas, quando chegam ao Instituto de Emprego, estão numa situação de fragilidade. E a fragilidade não se transmite num papel. A fragilidade transmite-se numa conver­sa. E eu gosto de ter sempre um dia da minha semana para receber as pessoas. Eu costumo dizer que o meu dia das au­diências é às sextas-feiras. É um dia que eu não uso o fato e a gravata.


Depois de uma passagem pelo Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira, onde desempenhou funções de vice-presidente, e após ter exercido o cargo de diretor regional da Administração Pública, Pedro Gouveia assumiu a presidência do Instituto de Emprego da Madeira em junho de 2025. Natural do Funchal, é advogado de formação, tendo estudado na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

É solteiro, tem 47 anos e descreve-se como uma pessoa por vezes complicada, mas que adora as coisas simples da vida. Considera-se inteligente, trabalhador, romântico sem fim… Confessa que adora ambientes calmos, mas gosta de uma boa festa de arromba! Com as pessoas certas, claro.

 

JM – 08/05-2006 – Carla Sousa

  • Maio 8, 2026
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